Casa di Bebel ... Rabiscos sem papel

Casa di Bebel ... Rabiscos sem papel

03 Junho 2012

Volumes

..... Nem tudo se explica. Mas tudo se sente, e entre o sentir e o tentar explicar há a suposição. Suponhamos que as coisas se avolumam movidas pelo afeto deslocado? Suponhamos que o tempo também sugira volumes. Como os de pó acumulado por desuso. De teias nas partes altas das paredes que não recebem nem tinta nova nem sequer uma pincelada de olhar. De coisas guardadas ainda que embaladas em papeis de presente que esperam um dia de festa chegar? De tapetes com fios puxados por receber pés passageiros e ligeiros. De janelas que deixaram de ser espelhos por conta da umidade dos últimos dias. De panelas amontoadas nos armários que sem a chama do fogão deixam de ser caldeirão. Tudo se sente mesmo quando se quer estar ausente.

01 Junho 2012

Intimamente esperava pra agradecer

... Intimamente sabia que desejava. Bem intimamente desejou o desejo daqueles dias. Desejou pertencer. Desejou ser uma voz que pulsa mesmo quando silencia. Desejou não mais desejar em dias de desesperos movido por incertezas que avançavam mais que anos. Desejou não desejar por nem saber se existia. Imensidões são como um deserto ... quase nunca se vislumbra o fim. Ao longe! Esquecera que haveria possibilidades de começos. De um dia vieram tantos outros. De um dia se via em tríade. Aquela arte sonhada. Objetivada. Aquele vigor dos que se entregam desmedidamente. Aquela cena poética e densa que embaralham as retinas e fazem pingar. Aquele figurino composto pra desnudar. Aquela luz em forma de moldura. Aquele ator de corpo inteiro, de olhos líricos sustentados por uma melancolia terna. Aquele diretor que olha pra querer ver. Aqueles dois bem ao lado, embora um estivesse sempre a frente, no centro da caixa preta enquanto o outro se posicionava ao lado dela ... sugerindo, insistindo na verdade, recolhendo essências. Aqueles dois ali ... Juntos por dias que já marcavam meses. Ela sabia que depois de tanto o inesperado novamente surgiria em forma de silêncios. Mas .... enquanto a vida gritava pra ser encenada, enquanto eles se uniam pra ver a arte alcançar sua expressividade e potência crítica. Enquanto ela não precisasse se despedir ... Sabia do muito que vivia. Sabia e desconfiava que talvez, também, merecesse. Talvez a insistência de não se deixar iludir, de não se deixar levar pelo entretenimento, de querer fazer inteiro e de verdade. Eram dias vívidos. Pareciam íntimos. Pareciam pares e trios. Pareciam doces como os cafés com bolachas dos intervalos. Intervalos doces recheados por períodos inteiros. Na verdade, não pareciam. Eram ....

17 Abril 2012

Sobre .... A queda que eleva

... ainda. Ainda estava com o coração inquieto. Ainda pensava se o lugar poderia ser ocupado com a dedicação necessária. O convite havia sido tão generosos e afetuoso que ela insistia em saber sobre o querer dos por quês. Como se os porquês pudessem aliviar o primeiro encontro. Ultrapassar as formalidades e construir um terreno de mínima intimidade. Como se os porquês pudessem aliviar as incertezas sempre tão certas. Sentia-se atrapalhando .... havia sido ensinada a ficar no seu lugar, no seu devido lugar. E quando este lugar não é, necessariamente, seu ... perdia-se naqueles lugares que a habituaram a ocupar.
Quis lhe dizer sobre seus medos de invasão. O convite à acompanhar todas aquelas palavras saindo da boca depois de ocupar o corpo inteiro já era tanto! Ficar ao lado, entender processos, a forma como se alimenta a teatralidade de cada dia, a descoberta do inédito e de sua repetição já lhe preenchia o coração. Estava grata pelo aceite da oferta. Estava empolgada com o movimento. E, ainda, depois de tanto lhe veio mais.
Sobre o mais ainda precisaria se acostumar. Todos precisam. Precisava sair do " mais ou menos". Nunca havia sido tanto faz .... Mas o " mais ou menos" insistia em lhe sussurrar acomodações. Tentou deixá-lo à vontade para desfazer a primeira oferta ... querendo lhe mostrar o quanto já era.
Na confusão desconexa que lhe acompanhou desde a hora que chegou e abriu os portões vermelhos viu o tamanho da sua perdição. Entre o medo da invasão e a vontade de permanecer por perto arriscou riscar suas palavras no ar naqueles minutos possíveis antes das 22:10. Poucas. Precisas. Desmedidas em sua tentativa de precisão para que outras leituras viessem depois do possível desconforto.
Mas .... Um interlocutor que sabe onde apóia seus pés e mãos sabe a direção do seu olhar. Ternamente ele lhe adocicou o fim de noite. Reafirmou o convite e ela se aquietou e deixou marcar. Seria as 9:30 da manhã seguinte daquela noite de" idéias no corpo". Nem se importou com seu retrocesso nas vivências na caixa preta, sabia do abismo daquela decisão. Sabia de onde vinha e apesar de não ter conseguido trabalhar com a concretude daquela ansiedade foi tolerante consigo e com sua mimética produção. Haveria um amanhã de manhã e depois de tanto tempo sem muitas manhãs talvez a noite custasse a passar. Talvez o sono poderia ser perseguido pelo fluxo de pensamentos. Talvez o que falou tivesse impactado o primeiro convite, talvez o aceite fosse episódico. Resolveu deixar os " talvezes" pra depois da manhã daquele amanhã. Teria um tarde entre a noite. Teria um porvir depois do devir.
E depois da mesa posta, das xícaras de tamanhos, formatos e cores diferentes. Entre o açúcar e o sem açúcar. Entre o copo vazio e o nada dela. Entre os sapatos. Entre os papeis e suas letras anunciadas por dentro. Entre tanto e tanto ela se sentiu acolhida e doce. Uma intimidade possível havia sido conquistada em menos de 3 horas e os olhos poderiam marejar se ela nisso continuasse a pensar. Uma tríade é uma bela imagem. Ainda que a lateralidade fosse o eixo havia conexão. Pensou e falou sobre o seu pensar sem muito medo. Falou de si através do texto e ficou tão emocionada por poder ficar um pouco mais.
Sobre o inesperado que ela sempre espera. Sobre o coletivo que ela tanto insisite. Sobre o afeto que tudo move e altera. Sobre os olhos úmidos e a música que sempre faz dançar. Sobre a poesia dos encontros e dos elos. Sobre a intimidade necessária que faz querer ficar junto. Sobre o sob. Sobre o que sempre há no fim e por dentro de cada um. Sobre a compaixão. Sobre a arte e seus artistas de todo.
Sobre .... Gostaria de escrever sobre. Sobre o que sobra depois de se acreditar. Sobre a gratidão. Sobre que o há no agora, nesse exato momento dentro dela. Sobre a valsa e a bailarina que dança na caixinha de música que ainda nem é sua. Sobre as suas coleções. Sobre o desligar dos equipamentos, sobre decisões indecisas. Sobre as decididas indecisões. Sobre o que irá querer .... o que irão.
Sobre tanto e tudo o mais.
Mas .... Há gratidão dentro dos olhos e dentro da boca que irá dizer!
Sobre ....

30 Março 2012

Molhação

... Depois de dias acamada levantou e foi ver seu jardim. Olhou vaso por vaso pra confirmar a aridez daqueles dias. Terra seca em dias sem chuva. As plantas estavam dependendo dela e de sua molhação. Dias sem lágrimas eram dias de aridez também. Ainda fraca em meio a desilusão e crença aqueceu seus pés recorrendo a um par de meias cinzas e foi. Viu a borboleta amarela e pensou que se as borboletas duravam pouco aquela já resistia há dias ... bravamente. Seria uma outra? Seria a mesma que se refazia a cada dois ou três dias? Mistérios de uma natureza nem sempre tão viva e colorida. Aos poucos as flores agradeciam a umidade artificial. Aos poucos ela se deixava embelezar por seu plantio. Gostava de ver suas florzinhas lhe surpreender. Depois de 3 dias as surpresas apareciam em maior quantidade? As amarelas estavam encorpadas. As mini-rosas estavam mais miudinhas e coloridas do que nunca. Botões novos. Botões abertos no dia anterior. Os gerânios pediam pra quebrar os galhinhos em que as flores já haviam despetalado.
Aos poucos foi se envolvendo. Era de envolvimento que precisava. Era envolvimento que oferecia. Continuadamente. Insistentemente.
Talvez aquele cansaço vinha desse insistência natural. Desse jeito de ser. Dessa forma de se ver e de ver o mundo todo desde o seu jardim. Lembrou dos gatinhos selvagens que precisavam comer e beber seu leite de todo dia. Mesmo de cama ela se levantou a cada dia pra lhes alimentar. E quando não foi ... eles a chamaram miando como nunca. Malhado, Chorão e Tigrezo pareciam lhe reconhecer. Falava que eram machos .... Não saberia verificar mesmo que pudesse. Pensou nesse porque .... talvez viesse do hábito natural de melhor se relacionar com os meninos, com os homens e agora com os machos. Fêmeas exigiam mimizices e ela não queria lhes oferecer.
Foi a parte de traz da casa e trocou a vasilha de água dos passarinhos que gostavam mais de se banhar do que de beber. Água limpa e banana cortada espalhada pelo quintal. E aos poucos e com tempo o mundo voltava a sua cena. Com um certo gosto.
Pensava se iria agüentar ir para despedida do curso naquela noite. Improvisaria se pudesse. Tentaria se conseguisse querer. Um querer. Talvez por conta da tosse, da fraqueza do corpo. Mas era o desânimo que mais lhe imobilizava.
No meio da tarde toca o telefone e quem se importa lhe fala. E quem a importa perguntou: se estava melhor, se iria de noite. E a surpresa lhe tocou e aqueceu o coração.
Riu sozinha e se aliviou por saber de tanto. Por saber que há. Um Mestre!
Do alívio à cura.
Não saberia como lhe agradecer. Talvez a borboleta amarela pudesse lhe agradecer.